A Venezuela polarizada por Chávez
Sinais da saturação chavista: 78% reprovam o fechamento do canal RCTV; 61% são contra a desapropriação de empresas particulares, e 75% estão insatisfeitos com o racionamento de luz. A popularidade de Chávez, que já foi de 70%, hoje está em cerca de 40%. E mais: 65% querem que ele entregue o poder em 2012, e 70% gostariam de ver, após as eleições legislativas de 26 de setembro, uma Assembleia Nacional com representantes de vários partidos.
A Venezuela enfrenta sua pior crise política desde que Hugo Chávez assumiu o poder, há 11 anos, e a figura do presidente divide o país entre os que o amam e os que o odeiam, conta a enviada especial a Caracas Mariana Timóteo da Costa em reportagem publicada no GLOBO neste domingo. As opiniões de moradores da capital são amostra da polarização da sociedade venezuelana entre chavistas e opositores ao regime bolivariano, e dão também uma ideia de como cada grupo reage, muitas vezes de forma inflamada.
Os defensores de Chávez são rápidos ao reagir às críticas de que o líder é autoritário, persegue a mídia, é responsável pelas crises energética e econômica e pela insegurança. E ainda citam os programas sociais como qualidades de um governo que, para eles, conseguiu o que nenhum outro fez: inserir o pobre na sociedade. Já os críticos falam de excesso de assistencialismo, de perseguição aos estudantes e à mídia, de falta de investimento energético e na indústria, da proximidade a regimes autoritários como Cuba e Irã.
- Os pobres querem ser cuidados, e o governo ainda tem muito dinheiro para isso. Mas, se as pessoas ainda se identificam com um discurso humano do presidente, sua ideologia já começa a dar sinais de cansaço - avalia Oscar Schémel, sociólogo e presidente da consultoria Hinterlaces, uma das mais importantes do país.
A empresa chegou a essa conclusão ao realizar pesquisas quantitativas e qualitativas, cada uma com cerca de 2 mil venezuelanos de todas as classes sociais, desde o fim de 2009, quando o presidente intensificou sua "revolução bolivariana", apertando o cerco à imprensa, expropriando empresas privadas, desvalorizando a moeda e endurecendo o discurso de luta de classes.
Os sinais de cansaço aparecem nos números: 78% reprovam o fechamento do canal RCTV; 61% são contra a desapropriação de empresas particulares, e 75% estão insatisfeitos com o racionamento de luz. A popularidade de Chávez, que já foi de 70%, hoje está em cerca de 40%. E mais: 65% querem que ele entregue o poder em 2012, e 70% gostariam de ver, após as eleições legislativas de 26 de setembro, uma Assembleia Nacional com representantes de vários partidos.
- Mas o mais impressionante é que 88% discordam do discurso do presidente, que vive falando que o bom é ser pobre, e não burguês. A ideia de luta de classes não cola mais. Há uma falência do discurso ideológico chavista - diz.
Isso, afirma, se deve ao fato de a sociedade venezuelana ser ávida por novidades e querer progredir na vida. Não à toa esse é o país onde existe o maior número de usuários de celular com acesso à internet da América Latina, por exemplo.
- É também um povo que vê no emprego, e não no assistencialismo, a única maneira de conseguir melhorar de vida. A Venezuela tem uma população muito mais complexa do que a que Chávez gostaria de liderar - lembra Schémel.
Mas o que ainda sustenta a popularidade do presidente? Para o analista, o primeiro fator é seu discurso humano. Não o de luta de classes, mas o que inclui os antes excluídos socialmente.
- Mesmo insatisfeitas, as pessoas têm fé nele. O programa "Alô, presidente" virou uma espécie de sermão. Se Chávez diz que o povo tem acesso à saúde, mesmo não sendo verdade, ele crê.
Mariana Timóteo da Costa - O Globo |