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 Só 17 em cada 100 baianos concluem o ensino médio

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Apenas 17% dos baianos concluem o ensino médio

EDUCAÇÃO
Documento do Unicef mostra a precária situação do setor

 

De cada 100 alunos que iniciam os estudos do ensino fundamental na Bahia, apenas 17 conseguem terminar o ensino médio.

Esta é a conclusão retirada da análise dos números fornecidos pela publicação “Situação da Infância e da Adolescência Brasileira 2009 – O Direito de Aprender: Potencializar Avanços e Reduzir Desigualdades”, lançado ontem pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O estudo traz um panorama da educação brasileira a partir de informações sobre acesso, permanência, aprendizagem e conclusão do ciclo básico de educação.

Os números mostram que apenas 36,5% dos alunos baianos matriculados no ensino fundamental terminam essa fase dos estudos. Destes, 48,2% concluirão o ensino médio. No Brasil, essas médias são de, respectivamente, 53,7% e 50,9%. O documento do Unicef coloca a Bahia na 21ª colocação entre os 27 estados brasileiros, no tangente à taxa de conclusão no ensino fundamental. No Nordeste, a Bahia só tem melhor desempenho, neste quesito, do que Piauí (35,8%) e Sergipe (33,3%).

A economista Cláudia Monteiro Fernandes, mestre em sociologia e assessora técnica do Unicef, que apresentou ontem a publicação em entrevista coletiva, em Salvador, elenca fatores que levam às baixas taxas de conclusão dos estudos: deficiência do transporte escolar (especialmente na zona rural); conteúdo estudado descontextualizado da realidade do estudante; trabalho infantil; gravidez na adolescência; e necessidade de ajudar na renda familiar.

Greves como as que acontecem neste momento na rede municipal de ensino também provocam ou agravam a desmotivação do aluno. É o que diz o doutor em ciência da educação pela Universidade de Paris Roberto Sidnei Macedo. “Prejudica, mas é uma necessidade conjuntural.

Greve não nasce por acaso, e sim em função das reivindicações do professor”, diz Macedo.

O professor Rui Oliveira, coordenadorgeral do sindicato dos professores, tem opinião definida sobre o tema. “O aluno é desestimulado pelo próprio governo.

Estamos no meio do ano letivo e em muitas escolas ainda não tivemos aulas de física, geografia, matemática, por falta de professor. Qual o aluno que vai ficar motivado?”, questiona.

LABUTA –Uilam Souza de Jesus, 17 anos, é um exemplo de jovem que trocou os livros pela labuta.

Ele concluiu o ensino fundamental e se matriculou no ensino médio no ano passado. Não foi às aulas. Este ano, Uilam, morador do bairro do Saboeiro, não se matriculou e passou a trabalhar com um tio, vendendo verduras no Nordeste de Amaralina.

“Vou voltar a estudar ano que vem”, garante Uilam. “Trabalho para não precisar do meu pai nem da minha mãe. Mas acho importante estudar para ter emprego melhor que esse”, conclui.

Antônio Santos Silva, 47, também planeja voltar a estudar. Ele conta que tinha 15 anos quando largou o colégio pela primeira vez, na quarta série. “Tinha que me manter”, sintetiza.

Anos depois, voltou a estudar.

Tinha cerca de 25 anos quando concluiu o ensino fundamental.

“Queria continuar, mas não conseguia.

Trabalhava como porteiro, vigilante, zelador e estudava à noite. Era difícil”, relata Antônio, que conta, orgulhoso, ter feito telecurso para conquistar o diploma do fundamental.

No entanto, ele não abandona o desejo de se formar no ensino médio. “Se tivesse estudo, teria um emprego melhor, mais oportunidades e uma vida mais fácil”, afirma Antônio, que trabalha das 7h às 20h numa mercearia.

RENDIMENTOS – A conclusão de Antônio Santos tem fundamento.

A Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) mostra que, em março deste ano, o rendimento mensal de um analfabeto era de R$ 350. Quem tem 1º grau incompleto, segundo o PED, ganhava em março cerca de R$ 530, subindo para R$ 613 para aqueles que concluíram o 1º grau ou têm o 2º grau incompleto.

O rendimento salta para R$ 957 para aqueles com 2º grau completo ou 3º incompleto.

Quem tem nível superior ficou com salário médio mensal, de acordo ao PED, de R$ 2.441.

O Unicef lançou, ontem, documento intitulado “Situação da Infância e da Adolescência Brasileira 2009 – O Direito de Aprender: Potencializar Avanços e Reduzir Desigualdades” 

 

NÚMEROS

36,5 % dos alunos baianos concluem o ensino fundamental. O Estado é o sétimo pior do País. Perde apenas para Piauí, Sergipe, Amazonas, Amapá, Acre e Pará.

7,5 % é a taxa de abandono no ensino fundamental, no Brasil, em 2007. No Nordeste, este percentual sobe para 14,4%. Na Bahia, o índice de abandono é maior que as médias brasileira e nordestina, chegando a 15,2%.

15,5 % é o percentual de abandono no ensino médio, no Brasil, em 2007. Na Região Nordeste, sobe para 20,1%. Na Bahia, o percentual volta a ser maior que as médias brasileira e nordestina: 20,9% 

30% a mais de escolaridade é quanto, em média, um aluno da zona urbana tem em relação a um aluno da zona rural brasileira.
 

Falta transporte no interior

Precariedade dos veículos e péssimas condições das estradas dificultam a ida dos jovens para a escola

 

O problema do transporte escolar é um dos principais responsáveis pelo fraco aproveitamento das turmas dos ensinos fundamental e médio de Jequié (a 359 km de Salvador), engordando a estatística do estudo do Unicef. A rede municipal de ensino, por exemplo, perde todos os anos mais de três mil estudantes por causa da evasão escolar. Esse número equivale a 16% dos mais de 23 mil matriculados pelas 99 unidades de ensino e é maior que o do Estado, cuja taxa de abandono é de 15,2%.

“Esse índice já era de se esperar, e vejo isso com tristeza”, lamenta o presidente da União de Prefeitos da Bahia, Roberto Maia (PMDB), atribuindo parte da culpa aos governos federal e estadual: “Os prefeitos arcam com a quase totalidade do transporte escolar, já que o governo do Estado, por exemplo, só nos destina de 10% a 20% do que seria sua obrigação. As prefeituras são obrigadas a sacrificar outras áreas para manter o transporte”.

Em Jequié, grande parte dos que abandonam a sala de aula – cerca de 10% – está na zona rural.

As principais causas apontadas por pais e alunos são a precariedade de alguns veículos e as péssimas condições das estradas vicinais, principalmente em períodos chuvosos.

DISTANTES – Pelos números da Secretaria de Educação, de um total de 23.904 estudantes matriculados na rede, 3.903 não concluirão o ano letivo. Parte deste contingente fica nos distritos de Nova Esperança e Oriente Novo, a pouco mais de 30 km do asfalto.

Quanto mais distância a ser vencida, mais estudantes fora da sala de aula, como nas localidades de Coqueiro e Jibóia. “Quando chove aqui na região nenhum carro sobe o morro, então é melhor não arriscar a vida na estrada ruim”, afirma a lavradora Mailza Borges, residente em Oriente Novo.

O quadro não é novo, assim como os veículos que trafegam na zona rural. Não há ônibus escolar e as poucas vans e kombis transitam apenas em estradas conservadas, fora do trajeto de serras e pontilhões de madeira.

Fonte 
Unicef

Amélia Vieira e Juscelino Souza - A Tarde
Colaborou Deodato Alcântara

 
    

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